A Mudança

A culpa é dos chineses. Até eles “aparecerem” nada disto acontecia! Nem os podemos contrariar! Para além de representarem “apenas” cerca de um quinto da população mundial, têm uma “estranha” forma de ser. Primeiro, não possuem qualquer palavra para exprimir a mudança, quando querem falar dela, usam dois caracteres, um significa ameaça, o outro, oportunidade. Boa forma de introduzir a coisa! Depois, leram os tempos aproveitando a boleia do consumo. Nós ficamos cheios de medo, sem imaginar sequer que também lhes poderíamos vender, ao menos, uns chouricinhos temperados ao fumo. São a segunda maior economia, crescem à grande e até os Americanos estão presos à sua trela, devem-lhes tanto “papel” que nem podem abrir a goela. O dinheiro dos gajos qualquer dia vai saltar do colchão, quem lhe vai pôr a mão?... Isto somente para mudarmos o “bico ao prego”! Em bom rigor, dá mais jeito aceitar essa certeza do que cultivar a eterna duvida. Como aconteceu àquele homem a quem disseram que a sua mulher estava com outro. O pobre coitado correu para casa, mas suspirou de alivio. Tanto alarido e afinal era o mesmo de sempre!

Quando tudo se começa a alterar, “parece que o mundo inteiro se uniu para me tramar”. Sentimo-nos injustiçados, perseguidos, desgraçados… Porém, é preciso termo-nos em grande conta para pensarmos que os outros se ocupam a delinear esquemas para nos dar cabo do juízo. Um bocadinho paranóico, não?!... Infelizmente, valemos muito pouco para os demais. O que existem são danos colaterais. Todavia, “quem não chora não mama”. Por isso, adoramos vestir a capa do “coitadinho”. Mesmo quando tudo corre bem, como naquele caso em que um doente entra no consultório de cadeira de rodas e sai de lá a caminhar. “Milagre”, exclamou quem estava na sala de espera, enquanto o “infeliz” resmungava “o médico nem sequer me auscultou”! Ironicamente, ouviam-se outras Variações dos Humanos que ecoavam baixinho na televisão, perto da recepção. “Ver-te sorrir, eu nunca te vi e a cantar eu nunca te ouvi. Será de ti ou pensas que tens de ser assim?... Muda de vida, se tu não vives satisfeito. Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar. Muda de vida, não deves viver contrafeito. Muda de vida, se há vida em ti a latejar”.

Por disfarçada cobardia, remetemos para o “sistema”, o facto de este nos impedir de avançar. É o governo, o chefe, a mãe, o policia ou o marido… Se é verdade que o mundo nos abafa e molda, também cada um pode inverter a direcção desta bola que roda! Como a água a ferver que altera o ovo, deixando-o mais duro e modifica a cenoura, tornando-a mais mole. Todavia, se formos café, espalhamos a nossa marca pela “água” que nos rodeia. A história está cheia de quem já o fez, desde o Obama, passando por Mandela até ao Pelé. Todos foram café! Para isso, temos de arriscar e fazer doutra forma, pois como diria Einstein “loucura é fazer sempre o mesmo e esperar resultados diferentes”. Não obstante, nem tudo que enfrentamos pode ser mudado, mas nada pode ser mudado se não for enfrentado. Luis XVI, antes de ser decapitado, afirmou “as mudanças são cruéis quando não fazemos parte delas”. Este monarca, só na hora da morte, conseguiu ler o sentido das correntes sociais que gravitavam à sua volta. Já era tarde demais! Pois, entretanto, foi levado até à sua “amada” guilhotina. Sem dúvida, uma invenção de perder a cabeça!

Mudança a mais também perturba. Tiranos o sono, rouba o equilíbrio da previsibilidade, factores importantes no reino da felicidade. Perseguimos a paz e a harmonia, que não se compadecem com alterações constantes da noite pró dia. Dizem mesmo que a lua não casou porque estava sempre a mudar. O vestido de noiva nunca lhe assentou para o altar. Mesmo assim, o sol espera uma eternidade para a abraçar. É tão bonito o eclipse que os deita na sombra a namorar. Tão forte é a ilusão que nos deixa a sonhar… Como seria voar no desejo da fantasia?... É uma pergunta que poderá ficar sem resposta. Só na roleta da paixão, se põe tudo num número porque simplesmente se gosta. Salva-se também o couro, a loucura e a solidão embrulhada em apego. Abafa-se igualmente o choro e sente-se a ternura na mordaça do desespero! Contudo, também é amar, morrer por alguém e não conseguir disparar. Basta, por vezes, o ambiente mudar para não se conseguir emprenhar?!... Como aquela mulher que engravidou seis vezes enquanto solteira. Depois, casou e não havia maneira!?... Está visto, existem selvagens que não se reproduzem em cativeiro! Há quem diga que pode ter a ver com a pele ou até com o cheiro?!...