A Confiança

É essencial acreditarmos em nós próprios, sem deixar de confiar nos outros. Quando julgamos que somos capazes de alcançar o que nos propomos é bem mais provável que o êxito aconteça. As expetativas otimistas dão-nos um presente embrulhado num futuro auspicioso, constituindo-se na pilha alcalina que nos fornece um combustível inesgotável, pleno de vigor e capaz de transformar “obstáculos intransponíveis” em desafios tremendamente estimulantes. Por outro lado, o receio sistemático corrói lentamente a alma, dando lugar a uma angústia difusa que impede o ser humano de avançar, seja lá para onde for. Esta ansiedade mórbida atira-nos para o precipício da dúvida, instigadora do caos mental paralisante. Daí ao pânico, é um rápido instante! Tão diferente do fulgor da segurança, mesmo que alicerçada numa enganadora certeza, bem evidente na atitude daquela mulher que audaciosamente se dirige a um distinto galã “você é tão parecido com o meu terceiro marido!?...” Levando o curioso cavalheiro a perguntar “mas quantas vezes casou?...” Ao que a doce senhora respondeu “duas”, ao mesmo tempo que deixava cair um sorriso apelativo!?...

Não basta despertar a voz interior do “yes we can”, temos de passar rapidamente para o “just do it”, de modo a rasgar as fronteiras do possível. Caso contrário, colocamos o destino nas mãos da providência, como ocorreu àqueles pastores que imploraram ao padre da aldeia para que rezasse uma missa suplicando a Deus o milagre da chuva, uma vez que naquela terra a seca já começava a ceifar vidas. O bom clérigo acedeu, a igreja estava a abarrotar, mas este, antes de iniciar as suas preces, percorreu todo o espaço e abeirando-se dos vários grupos de fiéis foi-lhes perguntando, aleatória e alternadamente “mas vocês acreditam mesmo que do céu pode cair água?...” Ouviu-se um estrondoso “sim”, unânime e categórico! Todavia, imprevisivelmente, o sacerdote exclamou alto e bom som “rua daqui, não vos quero ver mais!” Ao que uma incrédula devota retorquiu indignada, “mas porquê?...” O ministro da fé subiu ao altar e murmurou cabisbaixo “todos afirmaram inequivocamente a sua convicção, contudo nenhum trouxe guarda-chuva!...” Moral da história, temos de nos deixar de talk e passar a walk! Por isso, é tão importante usar saia?!... É isso, saia de dia ou saia de noite, mas saia sempre, não fique apenas em casa a ver passar a procissão!

Passamos agora para a dimensão social do conceito. Nesta perspetiva, talvez impere a desconfiança. À partida, estamos de pé atrás em relação aos que nos rodeiam. Não admira, pois cada vez há mais aldrabões refinados que descaradamente atiram a vergonha para cima dos ombros de quem insiste ser honesto. Também não é fácil ignorar os preconceitos nem a inveja dos mexericos que espreitam insistentemente a oportunidade de fecundar nos ouvidos dos incautos. Como aconteceu àquele caçador que vivia na floresta, tinha um bebé e adotou uma bonita raposa de tenra idade, acerca da qual os seus amigos sempre o tinham prevenido “um dia ela vira-se contra ti, não digas que não te avisamos!” Esse momento parecia ter chegado, quando o homem entrou em casa e deparou com o animal cujos beiços estavam repletos de sangue… “Ai o meu menino!”, gritou desesperado e num tiro certeiro abateu o selvagem traidor a quem dera guarida. Sofregamente correu para o quarto onde a criancinha brincava feliz, enquanto uma enorme cobra jazia no chão, claramente vítima de uma dentada feroz!... Enfim, parece que damos mais ouvidos à prudência inerte do “vê lá a tua vida, não te metas em alhadas”, quando precisávamos mais de uma mão firme que segurasse na nossa ao pisarmos territórios escarpados mas por onde nunca caminhamos.

No ecossistema interativo em que gravitamos deveriam existir menos forças repulsivas que nos afastam frequentemente daquilo que perseguimos, para cederem lugar a links robustos cujo magnetismo atrativo daria suporte aos desejos que almejamos. A vibração gerada por este fabuloso átomo global libertaria tão contagiante energia que impulsionaria consideravelmente o risco rumo à construção efetiva do progresso. Neste caso, os mecanismos da vontade disparam rapidamente à velocidade de um delírio, fugaz mas inesquecível. Daí a compulsão para repetir este estado de flow que nos faz sentir absolutamente poderosos. Porém, na fúria da autodeterminação jamais deve caber o egocentrismo traduzido em arrogância! Estes sentimentos nefastos, saindo de cena, libertariam espaço para uma vida plena de significado, onde a sincronia empática se vestiria de gratidão e a tónica do “eu” se inclinaria vertiginosamente para o “nós”. Quando se dá esta harmonia o sistema expande-se, crescendo através das mais-valias resultantes da propagação das enormes ondas que só as emoções positivas conseguem gerar. Nasce deste modo a genuína confiança, cujos índices até fazem subir a Bolsa passando assim o mundo a valer mais!