Monge

Um monge caminhava serenamente, acompanhado de um noviço, quando um bando de marginais o insultou. O homem escreveu então na areia “acabei de ser maltratado.” No dia seguinte, um respeitado ancião enalteceu as suas qualidades. Perante o elogio, gravou numa pedra “escutei palavras reconfortantes.” Tendo em conta o que observou, o jovem discípulo questionou o mestre acerca dos motivos que o levaram a registar as duas ocorrências de modo tão diferente. Ao que este respondeu “devemos dar pouca importância ao que de mau nos acontece, mas gravar para sempre tudo aquilo que a vida de bom nos oferece!” Enfim, devemos lembrar-nos do aniversário da senhora, mas esquecer a sua idade! Por outras palavras, perdoar é uma virtude suprema que corta pela raiz o ciclo da desforra e da vingança, pois como diria Gandhi “olho por olho e o mundo ficará cego!” Jamais deveríamos fazer como aquele individuo que atirou a primeira pedra à Maria Madalena e a quem Jesus perguntou “então tu nunca erraste?...” Ao que o portuga retorquiu “a esta distancia, só se fosse muito burro!”

Outro monge, achava estranho que a maior parte das pessoas vivessem em cidades poluídas, engarrafadas e até violentas, mas com o sonho de acabarem os seus dias a usufruir da serenidade do campo. Ele, desde sempre, viveu no aconchego da natureza. Parecia-lhe absurdo! Seria o mesmo que deixar o sexo apenas para a velhice, logo quando menos podemos desfrutar de tal delícia. Para quê penar a alma?!... A sua doutrina não defende o sacrifício, mas o perpetuo equilíbrio e plenitude! Temos uma existência desfasada, com a nostalgia da saudade a hipotecar o sorriso do futuro, tornando-nos insensíveis à alegria do momento. Ao contrário do que nos diz o Dalai Lama “ só existem duas alturas no ano em que nada pode ser feito. Uma foi ontem e a outra será amanhã. Portanto, hoje é o tempo certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver.” Em suma, o agora é uma dádiva, se calhar, por isso lhe chamamos presente! Este, não deve ser afogado no consolo imaginado de uma garrafa de champanhe e caviar, mais vale o realismo do tremoço e uma cerveja com alguém para brindar.

Contudo, o monge não pode ir à China, aí seria triturado e vendido numa loja dos trezentos como rebuçado alaranjado! Naquela terra de trabalho desenfreado, onde quem se esfola por uma tigela de arroz nos enche o supermercado. Definitivamente, o importante é ter, que se lixe o ser!... Mas, o ser humano também tem uma dimensão espiritual, ou será que somos seres espirituais que vivemos apenas uma experiência humana?... Até parece homilia de missa!... A este propósito, ficam duas citações. Napoleão afirmou “todas as religiões foram criadas pelo homem!” Mais tarde, Luíz Buñuel ironizou “ainda bem que sou ateu, graças a Deus!...” Em que ficamos?... Perguntemos àquele jardineiro que estava a regar à chuva, talvez ele nos possa esclarecer. Porém, exclamou “nunca precisei da ajuda de ninguém, sempre soube tratar da minha vida!” Até onde pudemos levar a casmurrice solitária!... Salve-nos o matrimónio como ultima bênção da partilha, tal qual fica ilustrado naquela conversa entre dois magalas “eu alistei-me porque sou solteiro e gosto de guerra” ao que o colega contestou “eu fi-lo porque sou casado e adoro a paz!...”

Na biblioteca do mosteiro, um monge procurava o recato do silêncio para poder meditar. Todavia, por ali um miúdo tropeçava nas suas vestes enroladas que mais parecia um farrapinho de açafrão. Traquina e sorridente, passava o tempo a distrair o estudioso budista. Até que este, na tentativa de entreter o rapaz, cortou um mapa em pedaços e disse-lhe que só voltaria a brincar com ele quando o pequeno conseguisse juntar os papéis e completar o puzzle de forma correcta. Para seu espanto, num ápice o quebra-cabeças estava concluído! Como conseguiste, inquiriu o mestre surpreendido?... Foi fácil, disse o garoto, eu já tinha desenhado um boneco nas costas do mapa, por isso para reconstruir o mundo basta consertar o homem! Palavras sábias, para reflectir… Parece que só dois tipos de pessoas dizem a verdade, os tolos e os catraios, os primeiros são internados, as crianças educam-se! No entanto, como alguém referiu, o autêntico conservador é alguém que sabe que o mundo não é uma herança dos seus pais, mas um empréstimo dos seus filhos! Logo, à que ouvir os putos, pois o futuro já não é o que era dantes!